segunda-feira, 12 de junho de 2017

Mantenha juntos os termos relacionados

    Uma das condições para redigir bem é manter juntas as palavras que têm relação entre si. O agrupamento de ideias afins concorre para dar unidade ao texto e torna mais fácil a leitura. Quando o aluno não observa isso o resultado é ruim, como se pode ver neste exemplo:

    “Observa-se hoje uma contrapartida na veracidade dos malefícios que o uso de drogas pode causar, inclusive no âmbito médico.”

   A parte grifada dá a entender que as drogas causam malefícios... “no âmbito médico”. O motivo dessa ambiguidade foi o deslocamento do adjunto adverbial (grifado) para o fim da frase. Esse adjunto, contudo, não está associado a “pode causar” e sim a “observa-se”.
        É o que mostra a refeitura, na qual se corrige também certa obscuridade semântica que aparece no início:

   “Observa-se hoje, inclusive no âmbito médico, uma contestação aos malefícios que o uso de drogas pode causar.”

       Agrupar não é apenas manter juntas as partes associadas. É também delimitar ideias semelhantes por meio de uma pontuação adequada. Vírgula ou ponto concorrem para que se dê ênfase a determinada(s) parte(s) do texto. Uma vírgula no lugar de um ponto estica desnecessariamente o período e deixa de destacar ideias importantes.
      Observe o seguinte parágrafo introdutório extraído de uma redação sobre os problemas do envelhecimento no Brasil:

        “O Brasil tornar-se-á um dos países com a maior quantidade de idosos no mundo. Em 2050, 30% da população brasileira, o equivalente a 64 milhões de pessoas, estará com 60 anos ou mais, mas será que todos conseguirão ter qualidade de vida?”

        O aluno abre o texto com uma afirmação que é justificada no período seguinte. Os números apresentados comprovam que a tendência do Brasil é ter no futuro um grande número de idosos. 
         A isso ele contrapõe uma pergunta que termina se constituindo no seu ponto de vista.  O questionamento sobre se o País terá condições de dar qualidade de vista aos seus idosos será desenvolvido ao longo do texto. A má pontuação, contudo, não reflete a importância do que foi questionado. Faz com que a pergunta apareça como uma simples extensão do período anterior.
          Outro seria o resultado se o aluno tivesse usado um ponto (e não uma vírgula) antes da conjunção “mas”:

         “O Brasil tornar-se-á um dos países com a maior quantidade de idosos no mundo. Em 2050, 30% da população brasileira, o equivalente a 64 milhões de pessoas, estará com 60 anos ou mais. Mas será que todos conseguirão ter qualidade de vida?”
         Escrever é cortar e também juntar, aproximando informações que se associam. O resultado será mais simplicidade e clareza.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Problemas com o uso da voz passiva

         A voz passiva é aquela em que o sujeito sofre a ação. Ela costuma aparecer quando se quer esconder o agente, em construções do tipo: “A tela foi comprada por um alto preço”. Ou “Comprou-se a tela por um alto preço”. Em ambos os casos, não se sabe quem foi o comprador. No primeiro exemplo tem-se a passiva analítica, feita com o verbo auxiliar (ser). No segundo, a passiva sintética, construída com o auxílio da partícula “se”. Nos dois casos, o sujeito é “a tela”.
         Os manuais de redação geralmente aconselham que se evite a voz passiva. Orientam que se diga, por exemplo, “O diretor suspendeu os alunos”, em vez de “Os alunos foram suspensos pelo diretor”. Há casos, no entanto, em que a passiva é desejável. Nem sempre interessa ao redator afirmar que alguém faz algo. Ele pode querer mesmo dizer que alguma coisa é feita, destacando o termo que sofre a ação. Afirmar “o livro foi lido em pouco tempo pela turma” não é o mesmo que dizer “a turma leu o livro em pouco tempo”. No primeiro caso o foco recai no livro; no segundo, recai na turma.   
          Segundo Steven Pinker, “muitas vezes o escritor precisa desviar a atenção do leitor para longe do agente de uma ação. A voz passiva lhe dá essa possibilidade” (“Guia de escrita”, p. 75, Contexto). Por exemplo: “O muro foi pichado de alto a baixo”. Em português se tem a alternativa de indeterminar o sujeito (“Picharam o muro de alto a baixo”), mas nesse caso a ênfase não recai no objeto (o muro), e sim em quem o pichou.
           A intenção de esconder o agente por vezes indica modéstia. Na apresentação de uma monografia, o autor pode escrever: “Um enorme tempo foi gasto para levantar as fontes”. A passiva é um meio de ele “disfarçarr” que dedicou muito tempo à tarefa (outra forma seria usar o plural da modéstia, que é também uma forma de atenuar o egocentrismo (“Gastamos um tempo enorme para levantar as fontes”)
          A manutenção da voz concorre para a unidade do texto. Se a voz ativa aparece na primeira oração, é desejável que também apareça na(s) seguinte(s). O efeito é muito ruim quando isso não ocorre. Veja: “Os bandidos destruíram as evidências do crime e novas provas foram forjadas.” Se o sujeito é o mesmo (os bandidos), por que mudar a voz? O mais simples é dizer: “Os bandidos destruíram as evidências do crime e forjaram novas provas.” 
 Omitindo o agente da ação, a voz passiva pode dar ao leitor uma falsa indicação sobre quem a pratica. É o que ocorre nesta passagem de um aluno: “No texto ‘Cortina de burrice’, de Cláudio de Moura e Castro, é feita uma comparação entre a sociedade brasileira e a europeia.”
 O estudante dá a entender que a comparação entre a sociedade brasileira e a europeia é feita por outra pessoa, e não pelo próprio Cláudio de Moura e Castro. Ele não correria esse risco se tivesse optado pela voz ativa: “No texto ‘Cortina de burrice’, Cláudio de Moura e Castro faz uma comparação entre a sociedade brasileira e a europeia.”
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          A voz passiva analítica tende a dificultar a leitura devido ao excesso de locuções verbais e à presença da ordem indireta (sujeito depois do verbo). Confira:  
 “Foi feita uma pesquisa para sondar a preferência dos homens quanto às mulheres com quem gostariam de ser casados. Foram rejeitadas por grande parte deles as liberais, as muito bonitas e as que tinham filhos de outros casamentos.”
O ideal em casos como esses é optar pela voz passiva sintética ou pela voz ativa, em que é natural a ordem direta. Veja como o texto melhora com as modificações:    
 “Fez-se uma pesquisa para sondar a preferência dos homens quanto às mulheres com quem gostariam de se casar. Grande parte deles rejeitou as liberais, as muito bonitas e as que tinham filhos de outros casamentos.”
Na passagem seguinte o uso da passiva analítica compromete o estilo devido à repetição muito próxima da desinência do particípio (ado):
Dentro de dois meses, será apresentado à comunidade científica pelo laboratório Nêutron um novo medicamento. Ele será destinado aos gordos que queiram perder peso sem fazer exercícios físicos.”
A mudança para a voz ativa e para a passiva sintética traz uma dupla vantagem (além de melhorar a sonoridade): destaca o agente, que aparece como sujeito, e reduz os dois verbos da locução a um verbo só:
Dentro de dois meses, o laboratório Nêutron apresentará à comunidade científica um novo medicamento. Ele se destinará aos gordos que queiram perder peso sem fazer exercícios físicos”.
          Outra falha que por vezes ocorre nas redações é a associação entre os dois tipos de passiva: “Não é novidade dizer que no Brasil não se é cumprida as leis ambientais.”
         Essa bizarra construção é uma espécie de cruzamento entre “No Brasil não se cumprem as leis ambientais” e “No Brasil não são cumpridas as leis ambientais”. A antecipação do verbo em relação ao sujeito favorece o erro de concordância (é cumprida), que também se explica pela intenção de indeterminar o agente (não se sabe quem deixa de cumprir essas leis).
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 É comum a tendência a apassivar indevidamente os verbos “refletir” e “proliferar”, como se vê nestas passagens:   
        - “A falta de comprometimento dos governos com a questão ambiental é refletida na decisão dos EUA de não participar do Protocolo de Kyoto, documento que tenta diminuir 5,2% da emissão de gases poluentes.”
- “Por conseguinte, essas práticas vão sendo proliferadas por toda uma carreira acadêmica e profissional.”
Com o sentido de “transparecer”, “revelar-se”, o verbo refletir é transitivo indireto ou pronominal. Neste segundo caso, o pronome “se” aparece como parte integrante do verbo e não como partícula apassivadora. Não se pode, então, traduzir “refletir(-se)” por “é refletido”. O correto é dizer que “a falta de comprometimento dos governos reflete (ou reflete-se) na decisão dos EUA de não participar do Protocolo de Kyoto (...)”.  
           Já o verbo “proliferar” é intransitivo e se conjuga sem o pronome. Como não admite complemento (objeto direto), ele não permite a passagem para a voz passiva. Assim, no segundo exemplo, a esdrúxula e malsoante construção deve dar lugar a outra que respeite essas características. Para isso basta mudar a locução verbal: “Por conseguinte essas práticas vão proliferando (ou simplesmente proliferam) por toda uma carreira acadêmica e profissional”. 

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Avaliando as redações do Enem 2016

No dia 18 de janeiro, o Inep divulgou as notas de redação do Enem 2016. Alguns dados merecem atenção:

-- apenas 77 estudantes obtiveram nota 1000;
-- a média da pontuação ficou entre 501 e 600 pontos;
-- 291.806 textos foram anulados ou obtiveram nota zero -- seja por fuga ao tema (46.974), seja por cópia dos textos motivadores (8.325), seja ainda por agressão aos direitos humanos (4.798).

O número de notas máximas impressiona, pois é bem inferior ao de anos anteriores. Indica um decréscimo na formação e sobretudo no interesse por parte dos alunos. O perfil do aluno nota 1000 é conhecido; trata-se de alguém que, além de ler muito e de forma diversificada (jornais, revistas, ensaio, ficção), pratica sistematicamente a produção de textos. Alguns chegam a escrever duas ou três redações por semana. O baixo número dos que obtiveram 1000 sugere que a motivação para a leitura e a escrita diminuiu.
Se redução da nota máxima não está ligada ao desinteresse ou mesmo ao despreparo do aluno, é o caso de averiguar o que a determinou. Terá sido a escola? Ou as bancas, que foram mais rigorosas quanto aos critérios de atribuição de notas às cinco competências? São perguntas que se espera responder quando os espelhos de correção forem divulgados.
Em sintonia com o decréscimo das notas altas, a média também baixou. Pode-se pensar que isso ocorreu devido à dificuldade dos temas, mas não é esse o caso. Religião e raça são normalmente objeto de discussão na escola e mesmo fora dela. Sempre se tem um posicionamento sobre tais assuntos, que permeiam a convivência numa sociedade heterogênea como a nossa. O que certamente faltou foi leitura e informação. Falhas no emprego do registro formal, inclusive com transgressões à gramática, também devem ter concorrido para reduzir a média.   
O que chama mesmo a atenção é o número de redações que tiveram zero. Os motivos para isso (fuga ao tema, cópia dos textos motivadores e desrespeito aos direito humanos) refletem tanto o despreparo do aluno, quanto a má orientação do professor.
A fuga ao tema é comum nos candidatos que não compreendem os textos motivadores e se mostram incapazes de extrair deles parâmetros que sirvam de base ao ponto de vista e à argumentação. Nesse caso pode ocorrer um total alheamento do que a banca pede. Esse alheamento (a tal fuga) se distingue do afastamento, que reflete a incapacidade de o aluno manter a unidade temática e preservar a linha expositiva do texto. O afastamento não leva ao zero, ou seja, não retira o aluno do exame; determina uma penalização proporcional (que comporta, sem dúvida, algum nível de subjetividade; como determinar “quanto” o aluno se afastou e lhe atribuir uma nota compatível com isso?).
O aproveitamento das ideias dos textos motivadores é legítimo e mesmo recomendável; pode e deve ser feito, desde que com palavras do aluno e com um acréscimo que represente a sua contribuição pessoal. Limitar-se ao que dizem esses textos, mesmo mudando as palavras, é cometer plágio.  
O desrespeito aos direitos humanos pode também ser fruto de uma orientação insuficiente. O professor tem o dever de alertar o aluno sobre os riscos de ir de encontro a valores fundamentais como o respeito à vida e à igualdade. Deve também preveni-lo sobre o perigo de manifestar preconceito contra as minorias, o que seria uma forma de agredir os direitos humanos. A rejeição à intolerância apareceu nos temas presentes nas duas versões do Enem 2016; era imperdoável que, ao desenvolvê-los, o aluno praticasse aquilo que as bancas pediam para ele evitar.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Erros lógicos na redação

        Escreve bem quem pensa bem. Uma das condições para isso é evitar erros lógicos, que denotam falhas no raciocínio e afetam a coerência. Tais erros comprometem qualquer tipo de texto, mas são especialmente nefastos naqueles (como o dissertativo-argumentativo) em que o rigor na articulação das ideias é fundamental.
        Segundo Othon M. Garcia, erramos quanto à lógica “quando raciocinamos mal com dados corretos ou raciocinamos bem com dados falsos” (Comunicação em prosa moderna, p. 316). Para evitar a segunda possibilidade, o redator deve se certificar de que suas fontes são honestas, idôneas. Caso refira algum disparate (apresentando dados estatísticos falsos, por exemplo), sempre é possível atribuir a elas a responsabilidade. Sua culpa será a de não as ter checado com o devido zelo.
        As falhas lógicas mais encontradas nas redações são as que decorrem do raciocínio deficiente. Entre elas destacam-se as definições inadequadas, a atribuição de falsas causas ou explicações e a petição de princípio. Vejamos um pouco sobre cada uma.  
         Definir é explicar o significado de um termo; é delimitá-lo em função de suas características essenciais. Para fazer isso, é preciso conhecê-lo muito bem. As definições inadequadas se devem justamente ao desconhecimento acerca do objeto definido. Quando isso ocorre, cometem-se imprecisões como esta: “A acumulação de objetos desnecessários, chamada de transtorno obsessivo-compulsivo, ocorre em quase um terço da população brasileira.”
     Sabe-se que entre os sintomas do transtorno obsessivo-compulsivo está a acumulação de objetos inúteis, mas essa prática por si não o denomina. Esse tipo de perturbação psicológica envolve bem mais do que isso. Ao limitá-lo apenas a um de seus sintomas, o aluno o define mal.  
       A apresentação de falsas causas ou explicações ocorre quando o redator faz conexões indevidas nas relações entre causa e efeito. O motivo quase sempre é uma falha na sequência do raciocínio, como se vê neste exemplo de uma redação sobre o culto da imagem na sociedade contemporânea: “No Brasil, recentemente tem vindo à tona uma série de erros médicos em cirurgias plásticas, fruto da insatisfação das pessoas com sua imagem."
         O aluno dá a entender que os erros médicos são provocados pela insatisfação das pessoas com a imagem. Por essa lógica, os pacientes é que seriam responsáveis pelas falhas dos cirurgiões. Isso lembra a história do marido que culpa o sofá pela traição da mulher e manda retirá-lo da sala. A mulher, com ou sem sofá, vai continuar traindo-o; da mesma forma, os erros continuarão a ocorrer estejam ou não as pessoas insatisfeitas com a própria imagem. Traição e erros cirúrgicos não ocorrem pelas razões apontadas.
        O equívoco do aluno se explica pela confusão que às vezes se faz entre causa e explicação. A insatisfação com a imagem indiretamente “explica” o aumento dos erros médicos, pois leva a uma maior procura pelas cirurgias. Com o aumento da demanda, torna-se estatisticamente maior a possibilidade de que tais erros ocorram. Mas dizer isso é uma coisa; outra é transferir a responsabilidade dos erros às vítimas e com isso “livrar a cara” dos cirurgiões (e deixar cada vez mais em risco a dos cirurgiados).
       Segue outro exemplo de falsa explicação, extraído de uma redação sobre a mentira: “Mentir é inerente ao ser humano, pois alguém, em algum momento da vida, já o fez.”
          O aluno inverte os termos. O que explica alguém já ter mentido é o fato de mentir ser uma característica humana; o geral justifica o particular, e não o contrário. Esse princípio lógico transparece quando se invertem as orações: “Alguém, em algum momento da vida, já mentiu, pois mentir é inerente ao ser humano.”
          A petição de princípio é uma recorrência no raciocínio. Consiste, de acordo com a lógica aristotélica, em apresentar no início de uma demonstração o argumento a ser provado (por exemplo: para provar a sociabilidade do homem, começa-se afirmando que ele é um ser social). Nesse caso, uma afirmação aparece como causa dela mesma.
       Há petição de princípio quando se diz que “Fulano foi reprovado porque não passou de ano”; ou que “Beltrano engordou porque ganhou alguns quilos”. Ela também ocorre nesta passagem: “A educação é muito importante para uma sociedade, não só pelo fato de ela ser de extrema importância, como também por ser um indicador utilizado para medir o desenvolvimento de uma nação”. O aluno atribui a importância da educação ao fato de ela... ser muito importante!

domingo, 22 de janeiro de 2017

Sobre a coesão sequencial

A coesão sequencial assegura a continuidade lógica dos componentes textuais. Ao contrário da coesão referencial, que retoma ou antecipa partes do texto, ela opera mediante acréscimos, correlações, uso de conectivos ou pela simples ordenação linear. Sua quebra ocorre, entre outros casos, quando
a) não se respeitam as correlações entre os modos e tempos verbais (ver, sobre o assunto, matéria nossa no número 73 da revista Língua Portuguesa);
b) não se usam adequadamente os conectivos, como nestas passagens retiradas de redações (entre parênteses estão as formas corretas):
- “O avanço tecnológico, além de suas vantagens e comodidades, traz preocupação a todos nós” (apesar de) -
- “Não queria deixar vovó sozinha a tão pouco tempo da morte do meu avô” (“há”, pois a preposição indica tempo futuro) -
- “O cigarro é uma irracionalidade, mas não podemos aplaudi-lo” (logo, por isso) -
- “O sofrimento é uma etapa da vida em que todos passam por ela” (“pela qual”, suprimindo-se o pleonástico “por ela”) -   
- “Perdi meu pai e fui morar com um sacerdote ao qual aprendi as minhas primeiras noções de latim” (com o qual) -;
c) não se observa a simetria entre os consequentes dos pares correlativos (alguns... outros; não somente... como também; tanto... quanto; etc.).
Por terem o mesmo valor sintático, os consequentes desses pares devem apresentar a mesma forma. Nem sempre os alunos observam isto, como se vê na passagem abaixo:
“Com o aumento da criminalidade no Brasil, a população busca reagir, alguns de maneira irracional ao tentar fazer justiça com as próprias mãos, enquanto outros acreditam que a redução da maioridade penal contribuiria para amenizar esse quadro.”
O estudante se refere a dois grupos populacionais que têm reações distintas ao aumento da criminalidade. Articula essa referência por meio de uma correlação introduzida, respectivamente, por “alguns” e “outros”. A correlação é contudo falha, pois o consequente de “alguns” aparece como termo simples (“de maneira racional”), e o de “outros” como uma oração (“enquanto outros acreditam que a redução da maioridade etc. etc.”).  
         A falta de correlação não é somente sintática; é também semântica. Se “alguns” reagem de maneira irracional, espera-se que a atitude de “outros” se caracterize por alguma racionalidade; o aluno preparou o leitor para a oposição. No entanto ele próprio contesta essa possibilidade ao qualificar como uma “mera crença” a ideia de que a maioridade penal vá reduzir a prática dos crimes. Se essa crença é ilusória, não constitui uma alternativa racional; logo, o paralelo proposto não se realiza.  2
Nesta passagem de uma redação sobre a escrita na internet, verifica-se uma quebra de simetria no uso de “não só... como também”:
“A internet atraiu um número significativos de adeptos por todo o mundo, tornando a escrita não só um dos principais meios de interação como também ampliou o acesso das pessoas a esse tipo de linguagem, mesmo que seja por meio de um teclado e não através de um mouse.”
É fácil perceber a quebra. Após o primeiro membro do par correlativo (não só), aparece um termo simples, centralizado pelo sintagma “meios de interação”. Já depois do segundo (como também), figura um enunciado oracional. O problema pode ser resolvido com o simples deslocamento de “não só” para antes do verbo:
“A internet atraiu um número significativos de adeptos por todo o mundo. Ela não só tornou a escrita um dos principais meios de interação, como também ampliou o acesso das pessoas a esse tipo de linguagem, mesmo que seja por meio de um teclado e não de um mouse.”
Rupturas na coesão sequencial não constituem propriamente infrações gramaticais. Dizem respeito à arquitetura do texto e interferem na legibilidade, por isso devem a todo custo ser evitadas.  

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Sobre o paralelismo semântico

Um leitor me escreveu pedindo a análise da frase: “Fez duas cirurgias: uma em São Paulo, outra no ouvido”. Ele diz não ter ficado satisfeito com a explicação de um professor: “A aula (dele) envolvia advérbios, não a frase em si”, explica.
Ocorre na frase uma quebra de paralelismo semântico. Essa quebra consiste em coordenar termos de diferentes campos lexicais. A referência a São Paulo faz esperar que se mencione outro lugar, e não o órgão operado.
      A quebra do paralelismo semântico caracteriza a chamada enumeração caótica, que tem muitas vezes efeito humorístico. Um exemplo desse tipo de quebra é esta famosa passagem de Machado de Assis: “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de reis”.
Espera-se que, após a conjunção “e”, complemente-se a referência temporal em semanas ou dias; em vez disso o narrador menciona uma quantia em dinheiro, o que à primeira vista parece um despropósito. Logo se percebe o alcance estilístico da ruptura; a menção ao dinheiro sugere que Marcela ficou com Brás Cubas por interesse, e não por amor. O resultado é bem melhor do que se Machado simplesmente escrevesse: “Marcela amou-me durante seis meses. Nesse período, levou-me onze contos de réis.” Aqui temos apenas a informação, sem a surpresa e a graça promovidas pelo estilo.   
Efeito semelhante ao de Machado obtém Drummond quando escreve, visando menos ao humor do que à tradução do desalento existencial: “Perdi o bonde e a esperança...”. A coordenação entre um termo do campo lexical dos transportes e outro do campo dos sentimentos promove uma ruptura que amplia o alcance da perda. Não se trata apenas da fortuita perda de um meio de transporte; o que se perdeu foi algo que assegura o percurso da própria vida. Sem esperança não se vai a lugar nenhum.  
         Não é qualquer ruptura semântica que promove o efeito estilístico. Muitas vezes a quebra não passa de uma falha estrutural. A frase enviada pelo leitor, por exemplo, é mais lacunosa do que caótica (no sentido que comentamos aqui). O destinatário fica sem saber qual cirurgia foi feita em são Paulo e onde ocorreu a cirurgia que se fez no ouvido. Não há suplemento, mas carência de informação. Tampouco transparece alguma intenção crítica, ou jocosa, promovida pelo jogo dos significantes.
          Outro seria o efeito se o autor tivesse escrito, por exemplo: “O cirurgião cortou-me o ouvido e o bolso”, sugerindo que o médico cobrou caro pela operação. O emprego metonímico de “bolso” (no lugar de dinheiro) quebraria o paralelismo mas encaminharia o leitor para um novo plano interpretativo, enriquecendo semanticamente a informação. 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Refazendo parágrafos

         A refeitura é imprescindível para melhorar a capacidade redacional. Ao refazer, a partir das correções do professor, o aluno vai tomando consciência das falhas que cometeu e tende a não repeti-las. O ideal é reescrever todo o texto, mas na impossibilidade de fazer isso pode-se reformular parte dele. De preferência parágrafos, que se estruturam em torno de uma ideia básica (tópico frasal) e têm unidade de sentido.
         Na refeitura corrigem-se problemas lógicos (como a falta de unidade), semânticos (como o preciosismo) ou estruturais (como a ausência de paralelismo). Seguem exemplos de cada caso, todos extraídos de redações:

1)  “A naturalidade humana vem se perdendo. Antigamente, era comum a existência de pessoas talentosas, que colocavam em prática seus dons e conhecimentos. Porém, atualmente, poucos fazem algo novo, diferente. Esse fato é consequência do avanço tecnológico.”
         O tópico frasal se refere à “naturalidade”, mas o desenvolvimento se ajusta melhor ao conceito de criatividade. Além dessa troca, que deixa o tópico desconectado do que vem depois, o aluno não explica por que o avanço da tecnologia teria tornado o homem menos criativo – hipótese no mínimo polêmica.
        Na refeitura se respeitou a discutível tese do estudante e se procurou, dentro do possível, suprir as lacunas da argumentação:
           “A criatividade humana vem se perdendo. Antigamente, era comum a existência de pessoas talentosas, que colocavam em prática seus dons e conhecimentos. Porém, atualmente, poucos fazem algo novo, diferente. Isso é consequência do avanço tecnológico, pois as máquinas vêm tomando o lugar do homem em tarefas que exigem maior desempenho intelectual.”  
2) “O trabalho na escola vem se reduzindo a meros interesses de resultados em vestibulares. Não há como negar a importância de resultados, qualquer que seja o âmbito tratado, mas muito melhor é unido aos resultados observar o corpo gerador dos mesmos. E qual esse corpo gerador senão aquele formado pelo conjunto dos seguintes valores: amor, respeito, justiça, paz, solidariedade? Para ultrapassar a superfície de meros resultados, o conceito escola ter impresso em suas entranhas os já mencionados valores.” 
         O parágrafo, como se vê nas partes em negrito, ressente-se do preciocismo (visível nas redundâncias e no empolamento das ideias, com vistas a sugerir uma falsa profundidade). Expressões como “qualquer que seja o âmbito tratado”, “corpo gerador dos mesmos”, “superfície de meros resultados” ou “ter impresso em suas entranhas” são excessivas e inapropriadas; terminam levando ao obscurecimento do sentido.
          O trabalho de refeitura consistiu basicamente em cortar os excessos e traduzir com rigor o pensamento do aluno:
         “O trabalho na escola vem se resumindo ao interesse por resultados no vestibular. Não há como negar a importância desses resultados, mas o importante é unir a eles a transmissão dos valores que os geram: amor, respeito, justiça, paz, solidariedade. A escola deve se comprometer sobretudo com esses valores.”

 3) “A mídia age nos âmbitos político, econômico e social. As consequências são: para o primeiro caso, a formação de cidadãos alienados e manipulados; para o segundo caso, impedir que o país adote as medidas econômicas realmente necessárias para o seu crescimento; para o terceiro caso, prejudica a difusão da diversidade cultural.”
O estudante apresenta, em processo coordenativo, as consequências da ação da mídia em três âmbitos. Era preciso que esses âmbitos estivessem estruturados da mesma forma, o que não ocorreu; a sequência começa com o substantivo “formação” e se completa com os verbos “impedir” e “prejudicar”, que aparecem em flexões diferentes (infinitivo e presente do indicativo).  
Na refeitura, procurou-se estabelecer o paralelismo tomando como referência o substantivo ou cada um dos verbos. O importante era que houvesse simetria estrutural entre os termos coordenados. Eis as três versões a que se chegou:   
 - “A mídia age nos âmbitos político, econômico e social. As consequências são, no primeiro, a formação de cidadãos alienados e manipulados; no segundo, o impedimento a que o país adote as medidas econômicas realmente necessárias para o seu crescimento; e no terceiro, o prejuízo para a difusão da diversidade cultural.”
- “A mídia age nos âmbitos político, econômico e social. As consequências são, no primeiro, formar cidadãos alienados e manipulados; no segundo, impedir que o país adote as medidas econômicas realmente necessárias para o seu crescimento; e no terceiro, prejudicar a difusão da diversidade cultural.”
      - “A mídia age nos âmbitos político, econômico e social. No primeiro, forma cidadãos alienados e manipulados; no segundo, impede que o país adote as medidas econômicas realmente necessárias para o seu crescimento; e no terceiro, prejudica a difusão da diversidade cultural.”