segunda-feira, 5 de março de 2018

ENEM - Não confunda ponto de vista com proposta de intervenção


  
      Diante de uma sociedade patriarcalista, a exemplo da brasileira, é comum observar-se diversos casos de assédio sexual dos homens com as mulheres. Diante disso, gera a problemática sobre como diferenciar os limites e as possibilidades da abordagem masculina. Sendo assim, faz-se necessária uma intervenção das instituições de ensino e uma modificação midiática, alterando propagandas sexistas.


          Numa sociedade patriarcal como a brasileira, é comum observar-se casos de assédio sexual de homens a mulheres. Isso gera o problema de diferenciar os limites e as possibilidades da abordagem masculina. A dificuldade de resolvê-lo se deve à omissão das instituições de ensino e à influência da mídia, que veicula propagandas sexistas.


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          Na introdução ao texto o aluno apresenta propostas, e não um ponto de vista (ele chega inclusive a usar a palavra “intervenção”); começa a redação pelo fim. Dizer que se faz necessário intervir nas instituições de ensino e modificar aspectos da mídia já é propor medidas para resolver o problema. Um bom exercício é argumentar em função do ponto de vista pertinente (em azul) e concluir com as propostas que ele tinha, equivocadamente, colocado fora do lugar. Confronte as duas versões para observar também as correções semânticas e estruturais.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Alguns problemas da argumentação

Na parte argumentativa do texto, defende-se o ponto de vista apresentado (preferencialmente) na introdução. Para fazer isso com eficiência, é preciso utilizar dados corretos e ser coerente. A maior parte das falhas na argumentação decorre de raciocínio errado ou de informações que não condizem com a realidade.
Entre os problemas comuns, está o uso de totalidades indeterminadas. Esse uso consiste em atribuir certos comportamentos ou características a toda uma categoria de pessoas, o que leva ao pecado da generalização. É o que se vê nesta passagem de uma redação sobre o novo papel da mulher na sociedade:
As mulheres modernas, influenciadas pelos ideais feministas, não consideram o casamento como o maior objetivo de realização pessoal, mas a conquista da independência financeira. Esse fato é determinante nas relações amorosas.”
Por mais que haja mulheres que não tenham o casamento como objetivo supremo, sempre existem as exceções (que por sinal ainda são muitas). Generalizar termina constituindo uma inverdade. Tenha em mente que o primeiro dever de quem escreve é ser verdadeiro.
    Outro problema comum é o uso inadequado de termos referentes a determinados ramos do saber (filosofia, psicologia, sociologia etc.).  Vocábulos como “livre-arbítrio”, “sofisma”, “autoestima” têm um sentido preciso. Empregá-los indevidamente gera confusão conceitual e fragiliza o que o redator supunha ser um trunfo (a palavra não deve entrar no texto apenas por ser bonita, dar prestígio; ela tem que significar).  
Um de nossos alunos iniciou uma redação sobre autoestima da seguinte forma:  “A autoestima é a análise subjetiva de uma pessoa sobre si mesma. Muitas vezes ela acaba sendo erroneamente relacionada ao sucesso pessoal.”  A autoestima não se confunde com a autoavaliação. Não é uma análise, mas um sentimento. Aplica-se a quem tem respeito ou amor por si próprio.
Compromete ainda a força argumentativa do texto a falta de conexão entre as ideias. Um exemplo é esta passagem de uma redação sobre a influência da mídia nas escolhas pessoais:
“A personalidade de cada pessoa caracteriza quem ela realmente é. Devido a isso é comum ver indivíduos que perdem o controle sobre seu modo de ser e acabam seguindo um modelo imposto pela mídia.”
No primeiro período o aluno define personalidade. No segundo, afirma que essa marca pessoal determina que os indivíduos percam o controle sobre si mesmos e se deixem levar pela mídia! Aparentemente, é o contrário. Não está clara e relação entre uma coisa e outra.
         Muitas vezes a falta de nexo decorre de uma estruturação insuficiente, que deixa implícita parte do que se quer dizer. Por exemplo: “É natural que os jovens busquem o espaço privado dos shoppings, pois além de ser um local valorizado por nossa sociedade centrada no consumo, as próprias cidades brasileiras sofrem com a falta de infra-estrutura.”
        De início não se percebe a relação entre a falta de infraestrutura das cidades e fato de os jovens buscaram os shoppings para se divertir. Há contudo um leve nexo, que não foi explicitado. O trabalho de refeitura ajudou a preencher a lacuna: 
“É natural que esses garotos busquem o espaço privado dos shoppings. Além de serem locais valorizados por nossa sociedade, centrada no consumo, os shoppings constituem uma alternativa para as cidades brasileiras, que sofrem com a falta de infraestrutura.”
Outra falha comum no domínio argumentativo são as falsas afirmações. Nem sempre os exemplos ou as ilustrações apresentados batem com a realidade. Por simplificação ou mesmo distorção dos fatos, o aluno informa o que não se constata no dia a dia. Interpreta os dados do real por uma ótica às vezes maniqueísta, às vezes muito redutora. Seguem dois exemplos com os respectivos comentários:
-- “As relações humanas são condicionadas pelo poder. Famílias ricas evitam o contato com os pobres, e até se incomodam com a ascensão financeira das classes C e D.”
É verdade que o poder determina em grande parte as relações humanas, mas não se pode dizer que as famílias ricas evitam o contato com os pobres sem especificar em que circunstâncias ocorre tal segregação. Nem todo rico despreza a pobreza.   
         -- “Ao longo da história da humanidade o papel e a importância do idoso mudou drasticamente. No período clássico eles eram os lideres e sábios, após a Revolução Industrial se tornaram objetos que podem ser descartados.”
Ainda há muito preconceito contra os velhos, mas também se observa hoje uma valorização das pessoas da terceira idade. Prova disto são as medidas tomadas pelo governo para facilitar-lhes a locomoção nas ruas, o acesso aos transportes coletivos, a prioridade em filas de bancos, cinemas etc. Sendo assim, é inexato dizer que as pessoas nessa faixa de idade são descartadas.
A argumentação é por excelência o domínio em que pensamento e linguagem devem se ajustar. Escrever bem é pensar bem, e para isso é preciso conhecer a língua. Esse conhecimento tem, por si, um efeito persuasivo. Argumentos mal formulados pedem a força; mais comprometem do que valorizam o texto.


segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Enem 2017 -- Análise de uma redação nota 1000

A formação educacional de surdos representa um desafio para uma sociedade alienada e segregacionista como a brasileira. O desconhecimento da língua brasileira de sinais – LIBRAS – e a visão inferiorizante que se tem dos surdos podem acabar por excluí-los de processos educacionais e culturais e mantê-los marginalizados em relação ao mundo atual. Portanto, esses desafios devem ser superados de imediato para que uma sociedade integrada seja alcançada.
Em primeiro lugar, a pouca abrangência da língua de sinais entre os mais diversos setores da sociedade faz dela um ambiente inóspito para os deficientes auditivos. Pesquisas corroboradas por universidades brasileiras e estrangeiras, como a Unicamp e a Universidade de Harvard, atentam para a importância da linguagem como principal porta para a convivência social, permitindo uma multiplicidade de interações interpessoais, como as de educação, cultura, trabalho e lazer. Assim, quando a sociedade se fecha à comunicação por sinais, justificada pela ignorância, aqueles que dependem dessa linguagem têm dificuldades de obter educação de qualidade e ficam, muitas vezes, à margem das demais interações sociais.
Além disso, a maioria das escolas brasileiras não incluem os surdos, assim como os demais portadores de necessidades especiais, em seus programas, estimulando a diferença e o preconceito. Por mais que a legislação brasileira garanta o ensino inclusivo, a maioria das escolas brasileiras não possuem estrutura para atender aos deficientes auditivos, principalmente por conta da falta de profissionais qualificados. A pouca inclusão dos jovens deficientes e não-deficientes valoriza a diferença entre eles, gerando discriminação e uma sociedade dividida. O renomado geógrafo Milton Santos dizia que uma sociedade alienada é aquela que enxerga o que separa, mas não o que une os seus membros, algo que se evidencia na exclusão de surdos em todos os níveis de ensino.
Dessarte, visando a uma sociedade mais justa, é mister superar os desafios da educação de deficientes auditivos. Para que o surdo se integre aos diversos meios sociais, como o educacional, o MEC deve fazer uma reforma curricular, que contemple o ensino de LIBRAS como obrigatório em todas as escolas, através de consultas populares na internet para determinação da carga horária. Ademais, com o intuito de tornar as escolas inclusivas, o MEC e o Ministério do Trabalho devem prover as escolas de profissionais capacitados, que possam lidar com alunos surdos através de programas de capacitação profissional oferecidos pelo SESI e o SENAC. Dessa forma, o ensino tornará a sociedade brasileira mais unida. (MCDC)

                                                      Comentários


1) O candidato inicia o primeiro parágrafo com uma generalização, considerando a sociedade, como um todo, alienada e segregacionista (devem-se evitar esses juízos genéricos e superficiais). A despeito disso, ele se sai bem na Introdução. Sua tese é a de que é preciso superar os desafios que impedem a integração dos surdos, cuja exclusão decorre, basicamente, do desconhecimento da língua de sinais e da visão inferiorizante que a sociedade tem deles.

2) Apresentada a tese, ou ponto de vista, o estudante inicia a partir do segundo parágrafo a argumentação. Utiliza com propriedade o operador argumentativo “Em primeiro lugar”, que antecipa uma sequência complementada, no terceiro parágrafo, por “Além disso”. O uso desses operadores concorre para estabelecer a progressão textual.  

3) O candidato utiliza no segundo parágrafo argumentos causais e de autoridade. Ele justifica a sua tese com a afirmação de que a pouca a abrangência da língua de sinais torna a sociedade inóspita (hostil) para os deficientes auditivos. Respalda essa ideia na autoridade de duas instituições de peso -- a Unicamp e a Universidade de Harvard –, que por meio de pesquisas confirmam a importância da linguagem como o principal meio para a convivência e as interações que essa convivência comporta em vários âmbitos (educação, trabalho, cultura, lazer). O uso do operador “Assim”, de caráter dedutivo, concorre para a eficiência lógica do raciocínio e dá ao parágrafo o aspecto de um texto autônomo (começo, meio e fim).

4) A ressalva que se deve fazer ao segundo parágrafo diz respeito à precisão vocabular. As pesquisas não são “corroboradas”, mas “empreendidas”, “levadas a efeito”; e não “atentam”, mas “demonstram”, “comprovam” a importância da linguagem como principal meio para a convivência social.

5) No terceiro parágrafo, ainda argumentativo, o tópico é “as escolas brasileiras”, que não concorrem para a inclusão dos surdos (a despeito do que estabelece a legislação) por não possuírem estrutura nem profissionais qualificados. O aluno utiliza um novo argumento de autoridade, representado por uma citação indireta do geógrafo Milton Santos, para o qual uma das marcas de alienação social é a dificuldade de atentar para o que une os seus membros; segundo o candidato, o Brasil se enquadra nessa situação quanto ao tratamento dado aos deficientes auditivos.

6) Novamente a ressalva que se deve fazer dia respeito ao rigor vocabular. Na versão do aluno, “A pouca inclusão dos jovens deficientes e não-deficientes valoriza a diferença entre eles, gerando discriminação e uma sociedade dividida.” Esse período ganha em exatidão caso se substitua inclusão por “integração” e “valoriza” por acentua.

7) Na Conclusão, o candidato retoma a ideia expressa na tese (sobre a necessidade de superar os desafios para a integração social dos surdos) e parte para a proposta de intervenção. Ela está articulada com o que foi argumentado, ou seja, atende à exigência de “manter um vínculo direto com a tese desenvolvida no texto e demonstrar coerência com os argumentos utilizados” (Guia do Participante, p. 24), e apresenta os componentes necessários (agente, ação, meio, efeito). O aluno desdobra-a em dois níveis -- o pedagógico e o profissional.

8) No nível pedagógico, ele cobra do MEC (agente) uma reforma curricular (ação) que torne o ensino de LIBRAS obrigatório nas escolas a fim de, com isso, integrar os surdos aos diversos meios sociais (efeito). No nível profissional, o candidato associa a ação do MEC à do Ministério do Trabalho (agentes), que devem prover as escolas de profissionais capacitados (ação), que possam lidar com alunos surdos através de programas de capacitação profissional (meio) com o intuito de torná-las inclusivas (efeito).
        
O que determina a nota máxima é basicamente a capacidade de compreender o tema, lendo bem os textos motivadores; ter uma visão crítica e pessoal do problema discutido; argumentar com lógica e clareza; apresentar propostas viáveis para, se não resolvê-lo, conduzir a uma possível resolução. O candidato atendeu a esses requisitos e fez jus à nota que obteve.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Dez conselhos a quem vai ensinar redação

Não ensine como fazer; mande primeiro os alunos fazerem. Ao corrigir o que escreveram, eles entenderão como deve ser feito.
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Não corrija uma oração, um período, um parágrafo sem explicar o motivo da correção e discutir com a turma uma melhor alternativa. Se o aluno não entender por que errou, ele tenderá a repetir o erro.
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Pense muito antes de dar um 10. A nota máxima pode dar ao estudante a impressão de que não precisa aperfeiçoar o texto. Além disso, é preferível que no vestibular ele se surpreenda para mais do que para menos.
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Procure mostrar a importância do respeito à norma culta. Erros de gramática ou ortografia são facilmente notados. Mesmo que não prejudiquem a “comunicação”, diminuem a credibilidade de quem escreve.
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Procure mostrar aos alunos a diferença entre redigir e escrever (no sentido literário).  Um redator se faz, um escritor nasce. Logo, a boa redação está ao alcance de todos. Só depende de leitura, estímulo e muito, muito treino.
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Estimule a leitura de ficção e poesia. O contato com os textos literários amplia a sensibilidade, revela as inúmeras possibilidades da língua e aumenta a capacidade interpretativa.
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Procure ressaltar a diferença entre escrever certo e escrever bem. A gramática não assegura a expressividade nem a boa organização textual. Tente mostrar isso comparando textos apenas “certinhos” com outros nos quais prevalecem a invenção e a expressividade.
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Declare guerra ao lugar-comum e à imprecisão vocabular, motivando os alunos a ir ao dicionário. O lugar-comum anula a personalidade do redator, e a imprecisão vocabular compromete o rigor do pensamento. Usar os termos adequados é um dos segredos de redigir bem.
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Escolha com cuidado os temas a serem desenvolvidos. Lembre-se de que cada tema é pretexto para leituras sobre a atualidade e um meio de aumentar o acervo de informações do aluno. Sem informações suficientes, é impossível apresentar bons argumentos.     
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Leia em voz alta algumas das redações corrigidas, destacando-lhes os aspectos positivos e os negativos. Os alunos têm curiosidade sobre os textos uns dos outros e encaram como saudáveis desafios as produções bem escritas, que testemunham a evolução dos colegas.

                                         

domingo, 7 de janeiro de 2018

O tema da redação da Fuvest 2018

O tema de redação da Fuvest, “Devem existir limites para a arte?”, relaciona-se com a polêmica exposição Queermuseu, cancelada pelo Santander Cultural  de Porto Alegre após críticas nas redes sociais e agressões no próprio recinto. O episódio suscitou acalorados debates sobre a velha questão da liberdade artística.  
Deve-se limitar essa liberdade em nome da moral e dos bons costumes? É lícito cercear o direito à criação quando se sabe que os artistas espelham as contradições e deformações da sociedade? Essas são questões sobre as quais o candidato deveria se posicionar.
O tema da Fuvest  envolve, em última instância, a questão da censura e da liberdade de expressão. Lembra a polêmica que se instaurou quando o Enem se propôs a anular as redações que ferissem os direitos humanos. A Justiça em boa hora impediu que isso fosse feito, pois é melhor saber o que a juventude verdadeiramente pensa do que ter dela um falso retrato. O direito de se expressar, por meio de obras de arte ou de dissertações num exame nacional, deve ser preservado porque é uma das condições essenciais para a democracia.
Os primeiros alunos a deixar os locais de provas consideraram o tema “fácil”, “interessante” e “melhor do que no ano anterior”. Ao contrário do ano passado, em que a banca centrou-se num tema filosófico  que citava Kant e remetia aos fundamentos do Iluminismo, neste ano ela partiu de um debate recente, privilegiando fatos e não conceitos. Isto sem dúvida facilitou o posicionamento dos candidatos e a construção dos argumentos.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

O tema de redação do Enem 2017

         As apostas eram risco de terrorismo no Brasil, crise hídrica, mobilidade urbana e que tais. A redação do Enem 2017, a exemplo do ano passado, voltou a se concentrar em comportamento. Na versão anterior se falou de preconceito (contra raça e religião), agora se aborda a educação dos surdos – um tema que também remete a preconceito e exclusão.
            Muitos sabiam da possibilidade de o Enem tratar da educação inclusiva. O que surpreendeu foi a limitação do enfoque à comunidade surda. Essa vinculação a um grupo representou um desafio a mais para o candidato. O que ele poderia fazer num caso assim? Como criar ideias e argumentos sobre um tema de âmbito restrito?  
Um dos recursos era associá-lo a temas correlatos, como o do próprio preconceito; ele é o maior obstáculo às estratégias inclusivas, pois tende a estigmatizar “o outro” e rejeitá-lo. Textos já produzidos sobre esse tema, ou mesmo sobre a exclusão de outro grupo, poderiam servir de referência desde que o aluno mantivesse o foco temático (um cuidado importante para assegurar a coerência e a unidade).
Outro recurso, sempre ressaltado em classe, era aproveitar os textos motivadores. A banca apresenta quatro, sendo dois verbais, um na forma de gráfico e outro como um anúncio publicitário. O primeiro é um fragmento da Constituição e destaca os direitos que a pessoa deficiente tem a se educar (“assegurados sistema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao longo de toda a vida”). A inclusão entra como um tópico que podia ser tratado num parágrafo; o aluno poderia especular em que ela consiste, quais seus possíveis efeitos, e questionar a sua prática (ou não) no Brasil.
          O segundo texto motivador apresenta um gráfico mostrando que o número de matrículas de surdos caiu entre 2011 e 2016 tanto nas classes comuns como nas especiais. Esse número é maior nas primeiras (de turmas inclusivas), mas a tendência de queda podia servir de contraponto argumentativo ao dispositivo constitucional citado acima. A despeito do que estabelece a Constituição, a prática de juntar na mesma classe deficientes e não deficientes vem se reduzindo. Qual seria o motivo disso e o que fazer para frear essa tendência?  
O terceiro texto motivador consiste num cartaz publicitário e trata o tema da inclusão no âmbito profissional. Remete, assim, ao desafio da inserção dos surdos no mercado de trabalho. Com olhos baixos (um pouco céticos, mas ainda esperançosos), um homem pergunta se tem espaço para ele nesse mercado. Em tipos menores, lê-se que o trabalho não tolera preconceito e que se devem valorizar as diferenças. Um questionamento possível desse texto seria em que o preconceito compromete a obtenção de emprego. Não era difícil propor os motivos e justificá-los.  
O quarto texto motivador, por fim, é o extrato de um documento oficial que historia o processo educacional do surdo. Nele basicamente se afirma que os deficientes auditivos só começaram a ter acesso à educação durante o Império, quando se criou a primeira escola para crianças surdas, e que só em 2002 foi sancionada a lei que reconhece a Libras como segunda língua oficial do Brasil. Esse reconhecimento foi fundamental, já que a Libras é um código que os surdos captam e transmitem naturalmente. É o referencial comunicativo em função do qual se reconhecem e pelo qual pleiteiam uma efetiva atuação social. Isso deveria ser destacado num tema que trata da educação, pois é pela linguagem que a identidade de pessoas e grupos se edifica e ganha visibilidade diante dos outros. Valia a pena destacar isso.  
Na proposta de intervenção social, o candidato poderia mencionar a necessidade de o governo cumprir a Constituição, garantindo e fortificando o ensino da Libras. Poderia também destacar a necessidade de se vencer o preconceito mediante a intensificação do contato entre surdos e ouvintes. Outra medida, inspirada no terceiro texto motivador, era cobrar do Legislativo a criação de leis que obrigassem as empresas a aceitar os deficientes auditivos -- ou, no caso de elas existirem, fazer o Judiciário fiscalizar o seu cumprimento.

sábado, 14 de outubro de 2017

O título pode valorizar a redação

          “Da Rede à rua.” Esse foi o título que um aluno deu a sua redação sobre novas formas de participação popular. Um título coerente, pois a tese era a de que o chamado ativismo virtual fica mesmo nesse plano e não evolui para manifestações reais. Mas sobretudo um título criativo, literário, pois associa a metonímia “rua” (lugar pela ação) à aliteração da vibrante múltipla (/rr/).
         Infelizmente o Enem não exige que o candidato dê título à redação. Nem ao menos concede uma pontuação maior a quem faz isso (embora os corretores, que são sobretudo leitores, valorizem um texto que os orienta quanto ao que vão ler). O resultado é que os alunos não se sentem motivados a fazer esse excelente exercício de síntese, que é intitular.
         E não é apenas no Enem que a omissão ocorre. De modo geral os professores, por simplificação e generosidade, também não solicitam essa tarefa – o que em nada beneficia a inteligência dos seus alunos.
         Eu penso e faço diferente. No início a turma protesta, diz que não está habituada, mas com o tempo se acostuma. E percebe que, dando um título, tem uma visão melhor do texto e orienta a atividade de leitura. O leitor agradece quando recebe essa primeira sinalização. E mais ainda quando ela vem de forma criativa, como ocorreu no exemplo acima.